sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Apesar de Você, Médici...


" Apesar de você, amanhã há de ser outro dia... Hoje você é quem manda, falou, tá falado, não tem discussão. A minha gente hoje anda falando de lado e olhando pro chão... "

Olá gente,
Voltando a falar sobre Ditadura Militar ( 1964 - 1985 ), gostaria de comentar sobre uma música do Chico Buarque, chamada "Apesar de Você".

Voltando no tempo...
Em 1970, Chico Buarque retorna ao Brasil, após seu exílio na Itália, com a impressão de que as coisas enfim estavam melhorando e que a desordem e a ditadura estavam com seus dias contados. Enganou-se. Era Governo do General Médici.
Abaixo, tem um trecho de um site de história para que possamos entender melhor a situação de nosso país:
"
Em 1969, a Junta Militar escolhe o novo presidente: O General Emílio Garrastazu Médici. Seu governo é considerado o mais duro e repressivo do período, conhecido como "anos de chumbo". A repressão à luta armada cresce e uma severa política de censura é colocada em execução. Jornais, revistas, livros, peças de teatro, filmes, músicas e outras formas de expressão artística são censuradas. "

Com isso, Chico resolve compor uma música, fazendo críticas diretas ao presidente General Médici. Após escrita, o próximo e difícil passo era pensar como fazer com que a música passasse pela censura. Tentou burlar a censura, afirmando que a música referia-se a uma briga de casal, em que a mulher era muito autoritária. Para sua surpresa, o departamento de censura aprovou a música, que foi lançada nas rádios e gravada em seu compacto, vendendo mais de cem mil cópias. Com o sucesso da música, oficiais do governo imediatamente proibiram a música de ser tocada e recolheram todas as cópias do disco de Chico. Nem preciso dizer o que aconteceu com o departamento de censura que aprovou a música, né ?!

Com esse acontecimento, Chico ficou marcado de forma negativa com os censores, o que dificultou ainda mais a aprovação de suas novas músicas. Por esse motivo, Chico criou pseudônimos ( nomes falsos ) como: Julinho da Adelaide e Leonel Paiva.

Sabendo dessa história, podemos interpretar de formar correta, a música "Apesar de Você".

" Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão
A minha gente hoje anda
Falando de lado
E olhando pro chão, viu
Você que inventou esse estado
E inventou de inventar
Toda a escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar
O perdão

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia
Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar
Água nova brotando
E a gente se amando
Sem parar

Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Este samba no escuro
Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza
De desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Inda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria
Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença
E eu vou morrer de rir
Que esse dia há de vir
Antes do que você pensa

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia
Como vai se explicar
Vendo o céu clarear
De repente, impunemente
Como vai abafar
Nosso coro a cantar
Na sua frente

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai se dar mal
Etc. e tal "


Link no youtube: http://www.youtube.com/watch?v=R7xRtSUunEY


Abraços.
Bruno Memoria

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

A Rita e a Ditadura

Olá,
Gostaria de falar, na minha primeira postagem, sobre música "A Rita" de Chico Buarque. Escrita em 1965 que, aparentemente, fala sobre mais de suas desilusões amorosas ( assim como "Samba do Grande Amor", "A Rosa"... ). Porém, na opinião de muitos, a tal Rita, na verdade, chama-se Dita. Muitas de suas músicas fizeram fortes críticas à ditadura e com o forte regime militar vivido na época, todas os obras artiticas e musicais deveriam ser previmentes aprovadas dela censura. Para passar pela censura, muitos autores 'camuflavam' suas músicas, deixando suas críticas implicitas nas entrelinhas, cabendo à população, interpretar seu real sentido.

Podemos notar o tom crítico subtituindo a rita pela ditadura:

"A Rita levou meu sorriso
No sorriso dela
Meu assunto
Levou junto com ela
E o que me é de direito
Arrancou-me do peito
E tem mais
Levou seu retrato, seu trapo, seu prato
Que papel!
Uma imagem de são Francisco
E um bom disco de Noel

A Rita matou nosso amor
De vingança
Nem herança deixou
Não levou um tostão
Porque não tinha não
Mas causou perdas e danos
Levou os meus planos
Meus pobres enganos
Os meus vinte anos
O meu coração
E além de tudo
Me deixou mudo
Um violão"

A crítica fica ainda mais clara nos últimos versos da música: "E Além de tudo/ Me deixou mudo/ Um violão".

Abraços.